Renato mora em São Paulo, mais precisamente, na capital. Seu apartamento possui um ponto de ônibus bem na frente da portaria. Todo dia ele pega uma condução que vai do bairro Santo Amaro até o Morumbi, onde fica o seu colégio. Ele mora sozinho, uma vez que, após a morte de seus pais em um trágico acidente, o seu tio banca a vida dele. O tio mora em outra cidade, uma cidade do interior chamada de Águas de Lindoia.
Renato não é um garoto que pode-se chamar de popular no colégio. Na verdade, não conversa com ninguém. É o "excluído" da turma. Todos os dias ele se perde em seus pensamentos e desenhos. Um mundo vivido por ele e ilustrado por ele também. Sonhos, desejo, tudo se realiza e é até vivido por ele, mas no nosso mundo é o contrário.
Há uma garota que ele observa, alguém que o atrai. O nome dela é Leila, e é uma das poucas pessoas que se arrisca em dar ao menos um "bom dia" para ele. Típica história hollywoodiana, poderia até ser, mas não tire conclusões precipitadas, caro leitor, essa história está apenas começando.
Renato chega no colégio, o capuz sobre a cabeça esconde o headfone e o seu olhar da multidão. A mochila surrada em um dos ombros trazem poucos livros e muitos papeis, alguns em branco, outros já com desenhos prontos e esboçados. Uma caixinha de metal faz barulho no balançar de seus paços: é a caixa de lápis e material de desenho completo, presente dado no natal anterior pelo seu próprio tio. Ele enfim entra na sua sala, muitas carteiras vazias, mas muitos alunos em pé fazendo bagunça e algazarra (típica sala de ensino médio). Procura um lugar não muito no fundo, na verdade, um tanto na frente, na segunda cadeira. Ele pega um lugar colado à parede, um lugar onde ele encosta e olha, com um olhar cético para a cara de cada professor. Senta-se e espera a aula começar. Isso, meus amigos, é uma triste rotina repetida dia após dia por ele.
A sala grande, com setenta alunos em sala, quase todos fazendo barulho, de repente vai se aquietando aos poucos. Motivo? O professor entrou. História. É dia de entrega de prova. Ele escreve o seu nome no canto do quadro como de costume e vai chamando aluno por aluno por ordem crescente de nota (mas não revela a nota). Por último, as três ultimas notas. Uma voz meio rouca e grossa calou o silêncio. "Vejamos quais serão os nossos três alunos mais bem colocados no quadro de nota. Em terceiro: Clarisse. Em segundo: Leila. Em primeiro: Renato. Leila e Renato foram os únicos a fecharem a prova, porém foi ele que apresentou respostas detalhadas e completas. Ela acertou tudo. Não desmerecendo-a, mas mostrando que vocês tem potencial". E a aula seguiu normalmente após vinte minutos de entrega de prova.
Ao termino desta aula, o professor ia saindo quando parou na porta e chamou Renato para uma conversa em particular. Do lado de fora da sala, os dois conversavam. "Acho que você não gosta quando eu te exponho deste jeito, mas se você visse o tanto de zero que teve nesta prova, você entenderia o porque de eu ter te usado como exemplo. Precisamos incentivar esses alunos, e você é, digamos, o aluno perfeito". Renato apenas desvia o olhar. "Faça o que quiser, eu não ligo. Apenas faço a minha obrigação e aprendo. Quer me usar como exemplo? Fique a vontade".
"Ótimo!!!"
O professor da segunda aula já está dentro de sala quando ele retorna. Pede licença para entrar e toma o seu lugar.
Matemática, Geografia, Recreio, Física e Biologia. Essas foram as sequencias do que Renato teve no colégio. Para terminar o dia, Redação. O professor chega animado na sala, fazendo brincadeiras como de costume. O olhar sádico de Renato permanece. "Bem, meus queridos, hoje trabalharemos um tema muito interessante. O tema de redação que veremos ao longo da semana será 'Felicidade'. Peguem uma folha e passem o resto para cá. Para o último de cada fila, peço que tragam-me as sobras" e passa fila por fila entregando um maço de folhas para o primeiro aluno de cada fila. Alguns minutos depois, o educador começa a falar, e no meio do monólogo ele cita um dos trechos da coletânea.
"Você é feliz? O que seria felicidade para você? Vivemos em um mundo onde ser feliz ficou para segundo plano. Um tempo onde a prioridade é o dinheiro e, como resultado, ficamos felizes. [...] Tomando isso por base, meus queridos, vocês se acham felizes?"
Sussurrando para si e olhando para a folha em branco em sua mesa, folha que ele planejava desenhar. "Feliz. tsc! É claro que eu sou feliz sem ninguém. Até parece que a companhia de outra pessoa me traria felicidade" e uma lágrima escorre no canto de um de seus olhos.
Sarcasmo puro. Outra característica típica de Renato, mas isso você irá perceber com o passar do tempo.
Logo atrás dele, uma cadeira atrás dele estava Leila, que por acaso acabou escutando o comentário dele que ficou o observando pensativa.
Ao termino da aula, como sempre, Renato é o último a recolher seus materiais. Ele observara a saída de todos, imóvel, movimentando apenas os olhos. Finalmente sozinho, daí então ele se move. Ergue-se da cadeira e guarda lentamente seus pertences. O zumbido das lâmpadas são sua única companhia. Bem, os zumbidos e Esdras.
"Por que sempre faz isso?"
"Não tem ninguém me esperando, para que me apressar? É inútil".
"Bem, eu não diria isso. Parece que há alguém te esperando sim. Ao menos hoje" Esdras faz um movimento com a cabeça indicando a porta.
Renato, que está ajoelhado de costas para a porta, vira-se surpreso, e lá estava alguém.
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