sábado, 3 de novembro de 2012

28 - O passado machuca


  Já fora do ônibus, Renato acompanha Leila até o apartamento dele. "Se não importa de subir escadas...". Ela só ri. Ri um riso tão doce quanto o mel e tão suave como uma brisa de verão. E subiram. Foram conversando, rindo. Até parece que ele faz de tudo só para ouvir mais uma vez aquele riso, ouvir novamente aquela voz. Bem, não só parece como está na cara, mas ele não se toca. Ao chegarem ao terceiro andar, Renato para. Há três portas: uma à sua frente, uma à sua direita e outra à esquerda. "Chegamos. Apartamento 32. Vamos, entre!" Ele pega as chaves do bolso e abre a porta para ela, deixando-a entrar primeiro, como se fosse um perfeito cavalheiro. Porém, ele não entra.
  "Tem certeza que é uma boa ideia? Afinal você é um adolescente que mora sozinho e está com uma garota, que parece muito estar gostando de você na sua sala". Esse é o Esdras, sempre duvidando de algumas ações de Renato, mesmo ele sendo apenas um fruto da imaginação dele. Esdras está parado atras de Renato, mas ele nem se vira para responder. "Não se preocupe" e entrou. Esdras só olhou.
  Ela está em pé no meio da sala, meio tímida, afinal ela é visita na casa de alguém que acabara de conhecer. "Sente-se! Pode ficar à vontade, por a mochila no sofá, tirar os tênis, não se preocupe com a 'etiqueta'. E me desculpe pela bagunça, viu? É que eu quase não me preocupo com a casa, mas eu faço uma pequena faxina de vez em quando, isso é, uma vez por semana, mas esqueci de fazê-la ontem". Ela riu, e ele adorou e achou graça também.
  "Não se preocupe com isso, as vezes o meu quarto fica pior em menos tempo. Mas... desculpa perguntar... você mora sozinho?"
  "Sim. Desde os meus dez anos, quando os meus pais morreram em um acidente... foi um incêndio na casa de uns amigos dos meus pais, eu estava junto, mas consegui sair vivo, diferente deles..." ficou alguns segundos aquele silêncio macabro. "Desde então o meu tio que me sustenta. Parece que ele é o único parente que me restou, só que ele mora na Alemanha e é impossível ele ficar aqui comigo e eu lá com ele. Tive uma babá por quase três anos aqui. Ele paga todas as contas e coloca um dinheirinho para emergências e lazeres para uma conta que ele criou para mim".
  "Sinto muito pelos seus pais".
  "Obrigado".
  E o silêncio novamente toma conta do lugar. Um silêncio melancólico.
  "Desculpa... é que... sei lá..." Renato não consegue nem ao menos terminar uma frase e solta um grito. "Aah!!! Esquece. O que quer fazer?"
  Ela dá de ombros e ri!

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