sábado, 17 de novembro de 2012

30 - São águas passadas, mas isso ainda me assombra

  O ano é 1980. A cidade ainda é São Paulo. Renato é novato no colégio. Quieto e sem tentar começar qualquer amizade sequer, ele apenas observa, analisa o ambiente quase selvagem. As patricinhas fazem rodinhas e mais rodinhas de fofocas, os caras "legais" conversam e zoam, mas colocam qualquer assunto obsceno nas palavras, típicas de garotos de 12 anos no começo de sua puberdade. Realmente são espécimes interessantes. O resto das crianças correm e brincam normalmente. No meio delas, uma garota. Normal, comum, cabelos castanhos pouco ondulados, olhos também castanhos, pele branca, mas não muito clara, e cheio de vida. Corre muito, mas não dá sinais de cansaço.
  Desde essa época, Renato vive sozinho, excluído por opção. Vem sozinho, vai sozinho.
  Um dia, essa garotinha o viu, viu que ele estava sonhinho e foi falar com ele.
  "Oi!!"
  "Olá"
  "O meu nome é Leila, e o seu?"
  "O meu? Renato"
  "Por que está tão sozinho aqui? Vem brincar com a gente!"
  "Não, obrigado pelo convite, mas não gosto muito de brincadeiras"
  Ela estranhou. "Um garoto de doze anos que não gosta de brincadeiras?"
  Pode parecer estranho, mas é a mais pura verdade. Renato não gostava de brincadeiras, não por que não podia, mas por que não queria mesmo. Preferia ficar apenas observando as pessoas, esses animais.
  "Bem..." Disse Leila, se levantando. "Eu vou voltar a brincar. Se quiser vir comigo, estarei te esperando lá, viu? Tchau! Gostei de conversar com você!"
  "Tchau. Eu acho que também gostei". E ela se foi.
  Desde esse momento, Renato apenas ficava olhando para ela, de longe, apenas pensando.
  E o tempo passou. Foi-se um ano, e mais um, até que, com catorze anos, começou a desenhar, e a desenhar muito bem. Passava quase o dia todo desenhando. Sentava na mureta do pátio para ficar observando Leila. Observava e fazia uns rabiscos no caderninho velho que ganhara de seu tio no último natal. Ele apenas desenhava, fazia esboços dela sentada, em pé, correndo, rindo, conversando... vivendo.
  Seria isso, meu caro leitor, uma paixonite? O famoso "primeiro amor juvenil"? Pode ser. Não só pode como é. É? Só pode ser. Não há outra possibilidade se não esta.
  E foi assim no ano de 82 inteiro. Mas a ausência do contato direto fez com que um esquecesse do outro. Não esquecer mesmo por completo, mas faz parecer que nunca chegaram a se conhecer. Ele fica olhando para a multidão, enquanto ela está ocupada demais com os amigos. Ao menos, isso é o que pode ser visto por qualquer um.
  Mas todos os dias, ele vai embora sozinho e ela com o pai. E todo dia ele chega sozinho e ela com o pai. E todo dia ele fica sozinho e ela com os amigos. E todos os dias ele a desenha, e os desenhos são aprimorados, ficam mais caprichados e bem feitos.
  E assim foi indo. Ele tinha um sentimento especial por ela, mesmo ela não sabendo de nada. Vivia preocupado com ela, via se ela estava se alimentando direito (ao menos no colégio), se estava realmente feliz e tudo mais. Ele se preocupava realmente com ela, com cada detalhe, mas nada pudia fazer, estavam muito longe um do outro, mesmo estando no mesmo colégio, e o pior, na mesma turma, mas o que realmente impedia eram as amizades, amigos "ciumentos" que faziam de tudo para manter a mesma turminha por tempos e tempos e tempos. Isso era o que preocupava Renato. Ele via que as amizades dela não estavam certas, via que o conceito de amigo não era totalmente aplicado naquela atmosfera, mas ele nada pudia fazer, era apenas mais um, era apenas um ninguém.

  "Entendeu, Esdras, tudo o que eu passo? Foi assim que eu sempre vivi, não posso perder essa oportunidade. Se continuar tudo igual, tudo bem, já estou acostumado, mas se mudar tudo, que seja para melhor, se não for, aí eu não tenho mais motivos para viver".

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