Boa tarde. Desculpe pela semana passada. Os guardas aqui andam muito tensos ultimamente. O clima está pesado. Não sei até quando ficará assim. Acho que, futuramente irá ter uma confusão generalizada aqui. Não sei. Espero, sinceramente, que não, mas se houver, espero que seja depois que eu for embora. Graças a Deus que será mês que vem já. Esse pesadelo finalmente chegará o fim. Quem sabe eu escreva um livro sobre tudo que passei aqui. Mas enfim, vamos ao que interessa.
Quando acordei e vi a minha amada em minha frente com o chapéu, fiquei feliz. Mas depois que ela tirou-o, algo em mim mudou. Fiquei estupefato com o que vira. Metade do seu belo e perfeito rosto estava desfigurado, cheio de hematomas e de cortes. O que havia acontecido com ela?
De repente me veio um lampejo. Depois que me toquei de tudo que havia acontecido eu percebi que a desgraça que havia acontecido com ela era culpa minha. O acidente que eu causei foi com o carro que ela estava e o pior, acertei em cheio a porta onde ela estava. O vidro cortou-lhe o rosto em várias partes, a cabeça dela havia batido no meu para-choque, deixando um pouco de sangue por sobre o capô. Antes de ela perceber o que havia ocorrido, o seu corpo já havia sofrido com os meus pecados. Inconsciente, acordou ainda presa pelo cinto no banco do carro que estava de lado devido à batida.
Confusa e desorientada, tentava gritar, pedir por ajuda, mas a sua voz não saía. Até que, por entre as ferragens da porta vira uma luz aparecer e aumentar de tamanho e intensidade. Era os bombeiros que estavam abrindo a porta para socorre-la do acidente. Ao sair, ela me conta, que me viu ali, parado e imóvel olhando para o nada como em um estado de choque. O que chamou atenção, de acordo com ela, fora um único corte na testa, um filete de sangue que escorria o meu rosto pálido como a lua. Se um fantasma pudesse sangrar, seria algo como eu.
Acordou no hospital algumas horas antes de mim. Apesar da gravidade do acidente, não se passava de pequenos arranhões no lado esquerdo de seu rosto e em seu braço. Veio me ver assim que recebera alta.
Depois de me contar tudo, Jade apenas abaixou a cabeça enquanto eu, olhando para o cima, comecei a chorar. Os policiais entraram calmos, porém decididos, e me falaram da minha situação. Disseram que eu estava preso por dirigir embriagado. Não neguei. Disseram que, assim que tomar alta, serei levado sob custódia (acho que foi isso que disse. Não lembro bem o termo que ele usou). Disse que estava tudo bem, mas queria, antes de ser levado, me despedir da minha noiva. Um dos policiais, o mais gordo, fez sinal de positivo com a cabeça e saiu com uma das mãos nos bolsos. Jade sentou ao meu lado e, sem dizermos uma única palavra um ao outro, ela ficou comigo por algumas horas.
Em momento algum ela soltou a minha mão. Sabia que ela não me odiava pelo que fiz. Sabia que não fiz por mal. Apenas cometi um erro e, por azar, acabei por feri-la.
O médico veio, então, me dizer que eu já estava liberado. Já estava sem soro algum, apenas deitado na cama esperando o médico e os policiais que me levariam. Sentei na cama e fiquei ali pensando alguns instantes. Enquanto isso, Jade colocou em meu dedo a aliança que seria dada a mim naquele dia e me deu a outra. Olhei para ela, que me deu um sorriso meio tímido. Sabia que ela me amava, apensar de tudo. Retribuí o sorriso e coloquei o anel em sua mão esquerda, assim como ela havia feito. Ela segurou com as suas mãos a minha com força e beijou-me. Levantou e saiu.
Os policiais vieram e começaram a falar comigo, mas eu só pude reparar que, ao sair, a minha amada estava apertando forte o punho. Devia estar chorando. A única coisa que lhe disse, antes de ir embora foi "Me desculpe". Ela? Além de me contar a sua versão, nada me disse.
Quando voltei ao mundo real, percebi que um dos policiais estava dizendo o que seria de mim e já estava, segurando as algemas, me pedindo para que eu o acompanhasse.
-Senhor, não precisa das algemas, eu não irei resistir. Sei do erro que cometi e das consequências. Sei que devo pagar e irei pagar sem negar. Acompanharei vocês com prazer - Disse eu ao policial, que guardou as algemas pouco tempo depois que partimos à viatura.
Semana que vem, te contarei como foram os meus dias aqui. Até lá, cuide-se e não faça nenhuma bobagem.
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