Vamos acabar logo com isso. Fui diagnosticado louco depois do ocorrido da semana passada. Desde então tenho ficado na minha cela, riscando a parede com um pedaço de concreto quebrado que achei no chão. Risco coisas como nomes, rostos e imagens sem forma. Escrevo sempre o mesmo nome, desenho sempre o mesmo nome. Vivo rodeado pela Jade. Ah, se Deus permitisse que voltasse eu ao passado para poder ver seu belo rosto novamente... Mas Deus não vive em lugares como este daqui. Aqui só existe demônios, e em mim vive uma legião deles.
Pois bem. Voltei naquela noite para casa. Torcia para que ela já estivesse melhor, que estivesse descansando para o grande dia que estava por vir. Estava por girar a chave quando ouço vozes. Imaginei o pior. Mas logo deixei as minhas loucuras de lado e entrei. Gritei pela minha noiva. Ela me respondeu que estava na cozinha. Tirei a minha jaqueta, deixei sobre o sofá e fui para o encontro de minha amada. Ao chegar lá, ela estava sentada à mesa junto de um homem.
-Amor, este é Robson. Um velho... Amigo. Vivia duas ruas acima da minha. Nos conhecemos quando tínhamos 15 anos. - Disse-me ela, me apresentando ao jovem à minha direita.
-Eu tinha 15, jade... Você ainda estava nos 13. Foi poucos dias antes do seu 14° aniversário. - Disse ele corrigindo Jade. Logo depois direcionou a palavra à mim, estendendo sua mão para um cumprimento amigável. - Prazer em conhecer o noivo da Jade. Éramos praticamente irmão. Poderia dizer até que somos ainda.
Não gostei dele. Simpático? Modesto? Sim. Mas há algo nele que não gostei. Porém, fingi que estava tudo bem, tudo feliz e me retirei. Peguei a minha jaqueta na sala e fui para o quarto, deixando os dois... A sós. Não gosto dessa ideia de "deixá-los a sós". Parece que o intruso era eu. Talvez fosse, afinal, ele é o ex namorado dela. Fazia 5 anos que não tinham mais nada, mas ele estava lá. Não podia ficar despreocupado.
Desci bem devagar, sem fazer um som. Não ouvi muito, mas ouvi o bastante. Primeiro, a voz dele. "Eu sei, mas eu queria saber se você está bem. Eu andei sabendo e me preocupei. Sempre me preocupei. Quando soube do seu pai... Fiquei te procurando para saber se precisava de algo, nem que fosse um simples abraço. Eu queria estar junto de você para te reconfortar".
"Depois do meu pai eu fugi. Vim para cá e ele me reconfortou. Me deu um lar. Me deu amor. Me trouxe de volta à vida".
"Depois do meu pai eu fugi. Vim para cá e ele me reconfortou. Me deu um lar. Me deu amor. Me trouxe de volta à vida".
"Compreendo. Fico feliz de verdade por você. Bem, eu já vou indo. Acho que não fui muito... Bem-vindo aqui. Adeus. Qualquer coisa, sabe o meu número. Pode me chamar sempre que precisar".
Ele saiu, quase esbarrou em mim, desculpou-se e foi embora. Eu olhei para ela e ficamos em silêncio. Ela subiu e me deixou sozinho na cozinha. Imóvel e sem saber o que fazer. Me senti culpado por algo, mas não sabia o que.
Volte semana que vem. Não tenho mais nada a lhe dizer.
Tá esperando o que?
Tá esperando o que?
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